A Cidade das Rosas Mortas

Carta de um barbacenense no exílio

Faz quinze anos que me despedi da minha terra natal. Filho deste chão, cresci nutrindo o desejo de que Barbacena fosse o meu único e eterno lugar. Os anos eram duros, é verdade, mas havia o amor inabalável da minha mãe, a cumplicidade dos meus irmãos e a força silenciosa do meu pai. Meu universo se resumia aos bairros Bom Pastor, Jardim e Campo, onde a infância e a juventude foram forjadas ao lado de amigos tão queridos. Naquele tempo e naqueles caminhos residiam o encanto, a esperança, os sonhos, as inocentes ilusões e a melhor das inspirações.

Contudo, o tempo não parou. A faculdade de Medicina veio, a carreira literária se iniciou, e toda aquela época de efervescência parecia, de repente, pertencer a outra vida. Tudo passou tão rápido que se tornou uma memória distante. Em meio à rotina exaustiva, à pressa imposta e às responsabilidades crescentes, a visão do mundo exterior começou a se turvar. É a brutalização. Você deixa de reparar o sol que nasce, as estrelas que se acendem, as flores e os jardins do caminho, o rosto das pessoas… O cotidiano nos cega, e o ser humano se perde na própria urgência.

Foi quando, muito cedo, meu irmão caçula e meu pai se foram. Diante do vazio, senti que não pertencia mais àquela cidade, àquele mundo, e estava sufocado por uma vida que nunca quis. Então, fui embora para o Sul do Brasil. Não levei quase nada — deixei tudo empoeirado na casa antiga: em caixas, folhas amarelas, na escuridão do esquecimento. Esporadicamente, eu voltava. Encontrava amigos leais, o que restava da minha família, e partia novamente, sem remorso. Muitas pessoas nunca entenderam minha escolha; não as culpo. Na bagagem, eu só tinha a coragem e a necessidade visceral de viver.

Foi em setembro de 2025 que retornei, após longos seis anos, para lançar meu livro de poesias, Anjo Atormentado. A sensação foi de chegar tarde demais — literalmente com asas cansadas e machucadas. Pela primeira vez na vida, não havia ninguém da minha família original em Barbacena. Caminhei sem destino pelas ruas, reparando as praças e as construções antigas. Muita coisa ainda estava como deixei no passado, porém o que vi era… decadente, esburacado, quebrado, partido, invadido. Na “Cidade das Rosas”, não encontrei flores, nem beleza, nem cuidado — e isso partiu meu coração. Só encontrei lembranças e a indiferença de quem deveria zelar por ela. O prédio da Casa da Cultura estava mutilado, violado justamente por aqueles que deveriam lutar por sua restauração. O regresso trouxe o luto pela cidade que foi.

Sei que, um dia, retornarei novamente, atraído pela nostalgia e pela inegável ternura daquela época feliz. Desejo e torço, do fundo do coração, que os meus conterrâneos possam fazer escolhas mais lúcidas e, de forma democrática, cobrem das autoridades providências urgentes. É preciso restabelecer o esplendor da nossa cidade — para que as gerações mais novas também tenham boas recordações e sintam o perfume das rosas, como eu tantas vezes senti nos meus anos dourados.

André Paolucci ocupa a Cadeira Número 04 da Academia Barbacenense de Letras