(uma história natalina)
Por Geraldo Barroso de Carvalho
(Membro da Academia Barbacenense de Letras; Cadeira número 13)
Tone era técnico em aerofotogrametria e topografia no Conselho Nacional de Geografia do IBGE. Ele fora designado para participar de operações no baixo Rio Doce, nas regiões de Colatina e Linhares (ES). Seu trabalho visava avaliar as possibilidades de tornar navegáveis trechos assoreados do Rio Doce. Em dezembro de 1960, ele encerrou suas atividades no Espírito Santo, e deslocou-se para Niterói com o objetivo de elaborar, na agência do IBGE ali existente, um relatório final sobre o trabalho que realizara.
Nessa ocasião, Tone estava exausto por ter permanecido mais de três meses nas baixadas do Rio Doce, aturdido pelo calor insuportável e pelas picadas das mais variadas espécies de mosquitos. Ele queria rever a namorada Dorinha, em Diamantina, e esquecer, por alguns dias, os problemas que tivera na aferição das condições de navegabilidade, e nos estudos topográficos, aerofotogramétricos e ecobatimétricos.
Na verdade, Tone teve uma experiência gratificante, ao tomar conhecimento da ecobatimetria, que visa medir a profundidade de um rio, através da emissão de ondas do fundo do rio a um sonar ajustado ao casco de um barco.
Terminado o trabalho de campo e tendo feito seu relatório, queria descanso.
No dia 23 de dezembro, ele solicitou permissão ao engenheiro, seu chefe, para ir a Diamantina onde pretendia ver a namorada e fechar o noivado com ela. Todavia, o chefe não deu sua autorização, sob a alegação de que todos os relatórios do serviço teriam de ficar prontos antes da posse do presidente eleito. Tone sentiu seu mundo cair, mas conformou-se com a recusa do chefe em dar sua aquiescência. Afinal de contas, era fim do mandato de seu conterrâneo, Juscelino Kubitschek, que ordenara as pesquisas. O presidente JK desejava levantar as condições de navegabilidade de vários rios, entre os quais, o Rio Doce. Juscelino alimentava o sonho de abrir uma rede de hidrovias, em um segundo mandato, mas temia que seu atual sucessor, o imprevisível Jânio Quadros, pudesse destruir seu projeto. Essa era a razão por que o presidente que saía queria ter os planos à mão.
Amargurado com a recusa do engenheiro chefe ao lhe negar permissão para ir a Diamantina, Tone telegrafou a Dorinha, informando-a de que não iria passar o natal com ela. O noivado teria de esperar. No dia seguinte, sexta feira, Tone voltou acabrunhado ao serviço no escritório. Por volta do meio dia, seu chefe, mostrando surpresa, perguntou a ele por que não viajara. Diante da explicação do subordinado, de que não conseguira sua permissão, o próprio chefe, mostrando-se surpreso, disse a Tone que ele poderia ser liberado, desde que voltasse ao serviço, na segunda feira, dia 26.
Mal acabou de receber a permissão, Tone correu afoito à pensão onde residia, ajeitou as roupas na mala, incluindo um terno de linho S-120. Em meio às roupas, colocou uma caixinha decorada contendo as alianças do noivado e um par de brincos para Dorinha. Em seguida, disparou para a Praça Mauá, onde operava a estação rodoviária, a essa época. No guichê, tentou adquirir uma passagem, mas foi informado de que as passagens já tinham sido esgotadas, mas Tone não se deu por satisfeito. Obstinado, ele partiu para a estação ferroviária. Não havia mais passagem para Belo Horizonte, onde pretendia pegar o trem para Diamantina. No entanto, esse trem, o N-1 (Noturno-1) que partiria da Estação Dom Pedro II (Rio) para Belo Horizonte às seis e meia da tarde, ainda estava parado na estação.
Mesmo com todos os vagões lotados, Tone conseguiu entrar como “penetra”. Devido ao excesso de passageiros, a viagem foi morosa e muito desconfortante para Tone que até então, viajara de pé. Felizmente, em Santos Dumont desceram muitos passageiros, deixando alguns lugares vagos. Devido ao grande atraso, o trem chegou a Belo Horizonte quando o trem para Diamantina já havia partido.
Que fazer?
Aturdido, Tone lembrou-se de que no bairro Carlos Prates existia um pequeno campo de pouso, onde se praticavam treinos preparatórios para candidatos a pilotos. Dali partiam voos para cidades mineiras próximas. Desesperado, Tone correu apressado até lá. Ele conseguiu, então, uma carona num voo para Corinto. A estação ferroviária de Corinto era um entroncamento ferroviário, de onde partiam trens para Montes Claros, Pirapora e Diamantina.
Quando o teco-teco sobrevoava Corinto, o campo de pouso parecia um pasto: estava ocupado por muares e equinos. Esses animais eram fustigados por garotos que tentavam dispersá-los, para permitir o pouso. Do alto, Tone pôde ver que o trem já partia da estação no sentido de Diamantina.
Sem perder tempo, quando o avião pousou, Tone desceu e, na cidade, pegou um taxi que o conduziu ao sonhado destino: Diamantina. Entretanto, à chegada, uma dolorosa recepção o esperava: Dorinha não estava na cidade. Tone foi informado de que ela viajara. Para onde? Ninguém sabia…
Arrasado, naquela mesma noite Tone retornou de taxi a Corinto, onde o mesmo trem que o levara a Diamantina o traria de volta a BH. Às 6 horas da manhã, na Estação Ferroviária da capital mineira, pegou o trem R-2 (Rápido-2) e partiu de volta para ao Rio.
Profundamente magoado, embarcou para escutar o enfadonho troc-troc que as rodas do trem produziam ao passar sobre as fendas que separam as partes dos trilhos. Todavia, logo cessaram os insistentes ruídos: o trem parou na estação de Santos Dumont.
Curiosamente, a Estação Ferroviária de Santos Dumont tinha plataformas de embarque e desembarque dos dois lados (à esquerda e à direita), porque ali ocorria um famoso encontro de trens. Os trens que partiam do Rio para BH chegavam no mesmo horário dos que partiam de BH para o Rio. Santos Dumont era sede do quarto depósito, onde havia reparos e substituições de peças e engrenagens das locomotivas.
De dia, o encontro de trens ocorria às duas e meia da tarde. De noite, o encontro ocorria às duas e meia da madrugada. Nessas ocasiões, os passageiros gozavam de um breve espaço de tempo, para um cafezinho. Essa breve parada, permitiu que Tone tivesse uma visão do paraíso: Dorinha estava na mesma estação, na plataforma do outro lado.
Como Tone informara a Dorinha de que não fora autorizado a ir a Diamantina, ela resolvera ir ao Rio para encontrá-lo. Como a autorização para a viagem de Tone, antes negada, mas obtida mais tarde, ele decidiu ir a Diamantina, sem comunicar à Dorinha. Por isso, ambos foram surpreendidos com esse encontro inesperado. Dorinha pensou que Tone a abandonara. Por outro lado, em Diamantina, ao ser informado da ausência de Dorinha, Tone pensou que ela o abandonara.
Desfeitas as dúvidas, os dois se abraçaram e se beijaram. Vibrante de euforia, ali mesmo ele abriu a mala, retirou as alianças da caixinha, colocou-as nos dedos anulares de ambos, ali mesmo se casaram, sob a proteção de Deus, tendo, como testemunhas, espantados passageiros na plataforma da estação.
Bendito Natal, no encontro de trens!