Edson Brandão
Zuenir Ventura, se foi aos 95 anos. Membro da Academia Brasileira de Letras, ele eternizou as dores e as lutas do país em obras fundamentais. Sua pena lúcida decifrou a nossa história com coragem e sensibilidade inigualáveis. O mestre descansa, mas seu legado e sua honestidade intelectual permanecerão vivos. Sua produção tinha forte impacto documental e seus escritos definitivos são dois livros fundamentais para se compreender o século XX no Brasil: 1968: O Ano que Não Terminou (1988) e Cidade Partida (1994). O primeiro reconstrói os intensos movimentos políticos, a efervescência cultural e o peso do desastroso regime militar no Brasil daquele ano. A obra vendeu mais de 400 mil exemplares e serviu como principal base de inspiração para adaptação televisiva. O próprio Zuenir enfrentou a prisão por três meses logo após o AI-5. Depois foi anistiado. O outro livro vencedor do Prêmio Jabuti, é uma investigação sobre a rotina da favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, logo após a trágica chacina de 1993. A obra é uma referência sociológica que destrincha o abismo da desigualdade, a violência urbana e as barreiras invisíveis que dividem o Brasil desde sempre.
Zuenir no Festival da Loucura
Muito identificado com o ambiente cultural do Rio de Janeiro, onde atuou por anos na imprensa, Zuenir Ventura na verdade, nasceu no município de Além Paraíba, no estado de Minas Gerais, no dia 1º de junho de 1931. Passou parte de sua infância na também mineira Ponte Nova e, posteriormente, mudou-se ainda jovem para o estado do Rio de Janeiro. Em 2006, mais precisamente, no dia 2 de abril, ou seja, há exatos 20 anos, ele veio a Barbacena como convidado especial para a palestra magna de abertura do Primeiro Festival da Loucura, com o tema, “Loucura e Transgressão. A presença de uma das mentes mais lúcidas do Brasil contemporâneo, no auditório da Faculdade de Medicina de Barbacena, depois do dia Primeiro de abril, mostra que não era mentira que Barbacena tinha coragem de arrancar a máscara de hipocrisia e culpa que lhe impingiam jocosamente há décadas, e celebrava ali um passado triste, mas com novos ares de dignidade e respeito. Naquela fala inaugural, Zuenir relembrou que na sua infância, em Ponte Nova, assim como Guimarães Rosa, em Cordisburgo e tantos outros, as histórias de horrores ocorridas no hospício de Barbacena circulavam nos “trens de doido” que tanto se falava. Mas ele ficou visivelmente emocionado ao vir à “Cidade das Rosas.” Tanto, que escreveu um artigo no site “No mínimo”, três dias depois de sua experiência no Festival, exaltando a coragem da cidade e sua cultura ainda pujante, citando o artista Lourival Vargas, o Grupo Ponto de Partida e o pintor Xico Santeiro.
A lição do Mestre Ventura ainda vale: onde muitos viram loucura e dor, Barbacena mostrou cura e amor!
A exaltação à cultura e à coragem de Barbacena, ao começar o milênio realizando o Festival da Loucura, hoje extinto, pode ser conferida na íntegra do seu artigo:
A festa da loucura
E eu, quem diria, acabei em Barbacena, uma cidade que aterrorizou minha infância em Minas porque era a terra dos malucos, o “porão da loucura”, como era conhecida. Perto, em Ponte Nova, onde morava, se dizia de alguém extravagante: “Esse fugiu de Barbacena”. Tudo porque o hospício da cidade era tristemente famoso em todo o país. A expressão “trem de doido”, que os mineiros usam até hoje, surgiu para designar os “carregamentos” de doentes mentais que aportavam ali vindos de todas as partes. Mais do que uma cidade, Barbacena era um estigma. Para mostrar que se livrou desse passado e dos preconceitos que envolviam a doença, a própria Prefeitura resolveu desmistificar a imagem, organizando na semana passada o mais original festival que já conheci: o Festival da Loucura, uma grande festa de quatro dias com shows ao ar livre, projeção de filmes na praça, exposições, colóquios e debates, girando em torno do tema. Em lugar de esconder sua “íntima ligação com a loucura”, dizem os organizadores, Barbacena “a exibe de cabeça erguida porque apagou de vez os tempos nebulosos e passou a ser vista como pioneira nacional em experiências psiquiátricas revolucionárias”.
A parte festiva teve shows de Tom Zé, Lobão, Hermeto Pascoal, um cover de Raul Seixas (Amorim Menezes), o bloco carnavalesco de pacientes “Tirando a máscara”, os grupos de teatro Carpe Diem e Ponto de Partida; e mais os filmes “Bicho de sete cabeças”, “Um estranho no ninho” e “Leolo”, e a exposição de obras de vários artistas plásticos: Gilmar Ferreira, Xico Santeiro, Lourival Vargas e impressionantes desenhos de D. Quixote, de autoria de Mário Mendonça. Aliás, o Cavaleiro da Triste Figura foi uma espécie de patrono do festival. Na entrada do prédio das exposições, o enorme monumento em material reciclado – ele montado a cavalo, tendo ao lado Sancho Pança. No ciclo de palestras e debates sobre as relações entre arte e loucura, foram evocados alguns gênios loucos, ou tidos como tais: de Van Gogh, Paul Gauguin, Edvard Munch, Tolstoi, Tchaikovski, até o nosso extraordinário Artur Bispo do Rosário. Pelo menos desde Platão, que acreditava numa “loucura divina” como base de toda criatividade, desconfia-se que a loucura seja uma forma elevada de inteligência. É preciso, no entanto, tomar cuidado porque nem toda loucura é genial e nem todo gênio é louco. De tudo que vi e ouvi, o que mais chocou foi o Museu da Loucura, idealizado pelo psiquiatra Jairo Furtado Toledo e instalado no antigo prédio do hospício. Pode-se imaginar as resistências que ele enfrentou para preservar a memória dos métodos bárbaros que muitos queriam ocultar. As imagens de mulheres, crianças, idosos vivendo em condições abjetas, sub-humanas são insuportáveis.
Nos anos 70, ao visitar o estabelecimento, o médico italiano Franco Basaglia, precursor de uma psiquiatria mais humana, sentiu-se num “campo de concentração nazista”. A sala onde se realizavam as lobotomias, conservando a broca com que se furavam as cabeças, as agulhas e os ferros, é um sinistro espaço de tortura, não de tratamento. Mais do que arqueologia de uma época, o museu é um grito contra o esquecimento: aquilo nunca mais.
Zuenir Ventura
(Artigo publicado no site “No mínimo”, dia 05/04/06)
Edson Brandão, membro efetivo da ABL, cadeira 32.